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carlosramos

Uma mensagem de miséria e fome em tempo de crise

9 publicações neste tópico

São 19 horas em ponto de uma noite de Inverno onde não falta a chuva. Numa rua do centro de Lisboa, abre-se uma porta das traseiras do supermercado de uma cadeia bem conhecida dos portugueses. Em poucos minutos, uma empregada coloca uma dezena de contentores de lixo no passeio.

Escassos metros ao lado, uma senhora búlgara faz de conta que olha para a montra de uma sapataria. A porta das traseiras do supermercado fecha-se e, sem demoras, aproxima-se dos contentores, abre a tampa e desata a mexer no que está lá dentro. Tem fome. Não sabe falar português. Diz-nos apenas, os dedos todos na mão aberta: "Cinco filhos, cinco filhos". Também têm fome.

Num ápice, surgem dois senhores de sacos na mão, um idoso e outro de meia idade. Debruçam-se sobre o interior dos contentores, os braços agitados a revolver o lixo. Que lixo? Os restos do dia, as sobras daquilo que ninguém comprou. E muita comida com o prazo de validade esgotado: frangos ou coelhos inteiros, peixe ou hortaliças. Pão, croissants e outros bolos, então, - ui! - são às dezenas. Ainda embalados nos sacos, com o respectivo preço, código de barras e data de validade a expirar no próprio dia (atente-se que o lixo foi depositado às 19 horas, 120 minutos antes do horário de encerramento do supermercado).

O JN aproxima-se, observa, tenta a abordagem. Eles mostram-se desinteressados, os olhos sempre postos no contentor. Não parecem querer grande conversa. Desconfiam. E mexem e remexem em embalagens, sacos plásticos, caixas de esferovite. A senhora búlgara, convencida de que ali estamos para o mesmo, estranha ver-nos quedos e toma a iniciativa de estender o braço para nos dar um saco de croissants.

É esta a dura e crua realidade diária de muita gente: procurar a comida no lixo que os supermercados deixam na rua. Não são pessoas sem abrigo. É gente perfeitamente integrada na sociedade, mas que vive à rasca, no desemprego ou com parcas reformas. O fenómeno não é novo, nem tão pouco circunscrito a este estabelecimento em particular. É algo que acontece em todo o país, onde quer que a fome aperte. E há fome em muitos lados. Como na casa de um idoso, que diz receber 350 euros de reforma, não tendo orçamento para o mês inteiro. É isso que o faz vir aqui mexer em restos de fiambre, separar as fatias que se lhe deparem decentes de outras mais impróprias.

Não passam mais de quatro minutos até chegar uma senhora com os seus 70 anos e aspecto cuidado. Assusta-se com a presença de uma máquina fotográfica, mas aceita falar sob anonimato. É uma história como tantas outras: trabalhou durante décadas como empregada doméstica, nunca descontou, foi despedida e agora vive sem reforma:

"Enrolaram-me, sabe? Era muito ignorante", lamenta. "Há muita gente que vem aqui, mas diz que é para levar comida para os animais", observa, antes de criticar aqueles "que vêm aqui mexer e deixam tudo espalhado no chão". Diz-nos que o mais habitual é aproveitar para levar pão e massa. "Eu acho que não estou a roubar nada a ninguém", afirma, antes de nos perguntar: "Isto não pecado, pois não?". É que se for eu não venho cá mais".

Fonte http://jn.sapo.pt de 08 de Fevereiro de 2009

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Infelizmente cenários como este já não são de agora. Repetem-se há anos, seja ano de crise ou não.

E, apesar de achar que em tempos de crise fazem mais falta mensagens de esperança do que de miséria e fome, vejo alguma utilidade neste tipo de reportagens - o de cativar cada vez mais pessoas para ajudar a minorar este tipo de situações. E, para quem pouco tem, não é preciso muito para ajudar - por vezes, basta um coração aberto e alguns minutos disponíveis para alegrar o dia de alguém que passa os dias a ouvir mensagens de miséria e de fome...

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Já há uns tempos que vi, em Lisboa, nas traseiras de um hipermercado uma cena destas. É lamentável verificar quanto se agudizam as diferenças. Um amigo dizia que eram  imigrantes, que não os devíamos deixar entrar...... mas não me pareceram somente estrangeiros. E mesmo que fossem o problema continuaria a existir. São muitas desgraças juntas e não são só de agora.

Compete aos governos minorar, se não extinguir, a pobreza, se é que isto não está no patamar abaixo da pobreza. E a todos nós também, como cidadãos. Considero que toda a ajuda é pouca e sinto-me muito limitada para intervir. Aliás, a minha intervenção é apoiar 2 ou três instituições que fazem um trabalho incrível de apoio aos mais carenciados. Mas a dimensão deste problema é muito maior. Ver velhos, novos, mães sem comida para os filhos é de cortar a alma :'(

Qualquer atitude nossa, pequena que seja, pode "alegrar" alguém, mas não chega - é um momento efémero. O Estado tem o dever de actuar, senão para que serve?

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A caridade é mais barata do que se imagina.Vcs tem ideia de quanto custa 500/600 kgs de comida para a distribuição de 500 sopas mensais?

120 euros...È mesmo só isso...

Claro que muita gente não pode contribuir com isso , mas ao dar 1 euro a uma instituição que tem este tipo de serviços à comunidade , vc estará doando 4 sopas aproximadamente.

E para quem não tem 1 euro , há muito trabalho voluntário por fazer. Ex: As sopas.Os ingredientes são comprados , mas elas depois precisam ser feitas.Há pessoas de baixa renda que não podem contribuir  com ingredientes , mas vão lá ajudar a fazer a sopa.

Eu ajudo porque não concebo não ajudar e ter a vida que tenho.

Para aqueles que dizem que isso é obrigação do estado (e é) eu pergunto. Se a sua casa estivesse a arder , vc gostaria que o vizinho tentasse ajudar com uma mangueira de jardim ou baldes de água ou que ele se limitasse a dizer: O estado que apareça cá com os bombeiros , que é para isso que eu pago impostos.

E depois , nunca estamos livres de estarmos do lado de lá...Basta um desemprego , uma doença incapacitante depois dos nossos pais morrerem , etc..e já está !!!È tão fácil a nossa vida mudar para pior...Na verdade , mais facilmente ela muda para pior do que para melhor.

Abraços a todos ,

Speedbird

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Speedbird, tens toda a razão. A nossa intervenção civil ainda é muito pouca, nestas coisas e noutras menos dramáticas. Estamos envoltos no nosso casulo e alienamo-nos dos dramas que estão tão perto de nós e que se podem estender a nós e a quem nós mais gostamos.

O Estado e  nós enquanto pessoas "individuais" podemos e devemos contribuir de alguma forma, por insignificante que pareça.

Já coloquei algures no fórum nºs de contribuinte, de forma aleatória, de instituições de utilidade pública para as quais podemos consignar o IRS - 0,5%. É só pesquisar no google ou até há algumas pertinho de nós (podem ser associações sem intuito lucrativo ou até instituições religiosas) e 0,5% do nosso IRS vai para eles. E há mecanismos para saber se foram recebidos ou não.

É imperioso agir, na minha humilde opinião, mesmo que nos pareça insignificante o apoio.

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"A ociosidade e a gratificação das inclinações pessoais não dão felicidade - a verdadeira felicidade só se pode alcançar servindo" (Baden-Powell).

Para muitos isto será demasiado ortodoxo! Contudo, pessoalmente, já vivi uma época em que as coisas eram mais ou menos assim: anos 70, por exemplo, em que ter valores, era uma questão de educação e boa formação . Hoje, infelizmente, a maioria pensa unicamente no seu bem estar, no "quero lá saber dos outros" e "não vê" a miséria humana que o rodeia! Pode ser que um dia veja (porque será obrigado!), se uma crise social de dimensões consideráveis, chegar e nos caír em cima! Os números estão aí e qualquer aprendiz de sociólogo, os saberá interpretar!

Devo dizer finalmente, que também não é neste fórum de finanças pessoais, que espero compreensão para este flagelo que atinge a humanidade: para isso há outros foruns, onde aqueles que querem ajudar o próximo, navegam!

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....Devo dizer finalmente, que também não é neste fórum de finanças pessoais, que espero compreensão para este flagelo que atinge a humanidade: para isso há outros foruns, onde aqueles que querem ajudar o próximo, navegam!

Caro Michael Collins,

Sou muitas vezes tentada a colocar aqui no fórum coisas que me interessam e que se calhar interessam também a outros e às vezes desisto. Acho que faço mal, ou será que por este ser um fórum de finanças só interessam os números em abstracto? Por detrás de números há pessoas!

Independentemente da receptividade vou colocando aqui, de quando em vez, posts que enquadro nos Diversos. Se o administrador e moderadores acharem por bem retirarem-nos, que o façam. Afinal, essa é a função deles.

Acho até que estou a ficar fã dos tópicos de Diversos  ;)

Um abraço,

m.elis

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Boas m.elis!

Ainda bem que te preocupas com coisas, para além dos números! Isso evidencia a tua boa formação!

Como é claro, não é suposto neste fórum, pela sua especificidade, encontrar muita gente com a sensibilidade virada para "ver" (não dizer que vê), os problemas sociais e mais importante ainda, ajudar no limite das nossas possibilidades, aqueles que sofrem (algo que nos pode um dia acontecer)!

Abraço

Michael Collins

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Para quem estiver interessado em fazer Voluntariado, aqui deixo os seguintes dados:

Conselho Nacional para a Promoção do Voluntariado

Avenida Marquês de Tomar, 21 - 7º andar - 1050-153 Lisboa

Tel. 21 792 6218/20/24

Endereço electrónico - CNPV@seg-social.pt

Para quem reside fora de Lisboa, consultando o "site", pelo mapa, acede aos distritos e concelhos de todo o país, onde encontrará Instituições várias (religiosas ou não). Um pequeno gesto, que poderá dar um sorriso a quem o não tem,  minorar a solidão que mata devagarinho, reduzir a fome... enfim, lutar para que os desiquilíbrios sociais diminuam! No fundo, tão simples e ao mesmo tempo, tão reconfortante, ajudar quem é carenciado!

Em suma, é dar um pontapé no egoísmo instalado nas sociedades contemporâneas. É tempo de dizermos basta à insensibilidade, de fazermos da Vida algo mais do que o fardo, que cada um carrega da forma que lhe pese menos, pensando apenas em si!

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