carlosramos

Um futuro hipotecado

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A revisão em baixa do rating pela S&P vem na linha daquilo que vem sendo a actuação das empresas de rating desde que se iniciou a crise financeira. Infelizmente ninguém põe mão nestas empresas privadas e, empresa atrás de empresa, todas têm colapsado à custa das revisões dos ratings que, acertadamente ou não, teimam em trazer à baila ainda mais desconfiança para o mercado. A única solução de parar esta hemorragia poderá passar com uma suspensão imediata e temporária das operações por parte destas empresas, antes que o estrago seja irremediável.

Entretanto, deixo as minhas ideias sobre mais este triste evento, não sem antes fazer uma revisão da matéria dada, para que todos percebam do que estamos a falar...

Ora, o crescimento económico assenta, nos dias de hoje, em dois princípios fundamentais - o consumo e o investimento público. Por incrível que possa parecer, ambos dependem dos próprios cidadãos de cada estado. O consumo depende dos recursos que não são utilizados para a poupança e o investimento público depende da poupança que os cidadãos consigam fazer.

Estas relações deixam de ter validade a partir do momento em que os cidadãos passam a querer mais do que aquilo que os seus recursos lhe permitem. O primeiro passo é deixar de poupar e o segundo é endividar-se.

Quando os cidadãos deixam de poupar, deixa de haver margem para que o governo faça os seus investimentos. Assim também o governo, para fazer face aos seus compromissos, terá que se endividar.

Para isso o governo geralmente recorre áquilo que é chamada de emissão de dívida pública, isto é, à emissão de obrigações de dívida pública. Estas obrigações inserem-se na categoria de produtos a que chamamos de "renda fixa", isto é, produtos que pagam, anualmente, uma renda (taxa de juro, neste caso) fixada à partida. Na prática, o governo através da emissão de obrigações, obriga-se a, durante o prazo estipulado de validade (até à maturidade) dessas obrigações a pagar uma taxa de juro ao detentor dessas mesmas obrigações.

É aqui que entram os ratings. Os investidores procuram sempre investimentos cujo risco seja o menor possível. Quer isto dizer que, quando o investidor tem um determinado capital à sua disposição, vai procurar alocá-lo na aplicação que lhe der o melhor retorno possível com o menor risco possível.

Escusado será dizer que esta procura é por comparação, isto é, por exemplo, compara-se o risco das acções com o risco das obrigações - o investimento é feito na que tiver a menor risco.

Ora, se o Governo Português anunciou que para 2009 pretende emitir entre 11 e 14 mil milhões de euros de dívida, necessitará que hajam investidores interessados em adquiri-la. Assim, o Governo terá que definir uma taxa de juro que compense o risco de investir em portugal (e nos portugueses).

E se não haver interesse na dívida Portuguesa? Convém lembrar que o Governo dos Estados Unidos vai efectuar emissões em massa de dívida este ano e, ao mesmo tempo, outros países com uma notação de rating muito superior ao de Portugal irão fazer as suas emissões de dívida - record em maior parte deles, como é o caso de Espanha... Temos que nos lembrar que continuamos em plena crise (de liquidez, de empregos, em suma, da economia) e os capitais disponíveis não são assim muito elevados...

Ora, se o Governo não tiver compradores para a sua dívida, quer dizer que não vai ter possibilidade de se refinanciar, ou seja, de pagar a dívida "antiga" que se vencerá este ano. Ora, se não tiver essa capacidade, também não terá capacidade para pagar os juros da dívida corrente o que quer dizer, na gíria financeira, que irá entrar em "default", ou seja, incapaz de fazer face aos seus compromissos. A partir daqui, a espiral de redução de rating é inevitável e, com ela, a falência do País.

A questão que se coloca aqui é a seguinte: uma vez que a mudança de notação de rating geralmente torna-se catastrófica, o que fazer no caso de não haver interessados em financiar o estado português, ou seja, não haver interessados na dívida pública portuguesa?

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Esse valor dá mais de 1000€ por cada português...

Do que li no texto, não sei se percebi a relação entre a poupança dos cidadãos e o investimento público. Dá para explicar isso um pouco melhor?

Quanto à tal espiral de redução, acho que só se mantém enquanto se continuar a apostar em contrair mais dívida para pagar a dívida anterior. Algo que eu sempre achei que se devia evitar (mas também eu já me custa às vezes perceber as finanças pessoais, quanto mais as do Estado).

Mais uma pergunta: o aumento da produtividade e da riqueza produzida no nosso país (e consequentemente do dinheiro disponível para poupar) são o suficiente para voltar a fazer subir o rating?

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