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Vampire

A luz e a sombra do Capitalismo

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Li este artigo escrito por César Borja e achei interessante...

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1. Introdução

Ponderei muito antes de escrever este artigo mas não é a ponderação que me leva finalmente a escrevê-lo, é mais a indignação!

Estou cansado e atormentado por todos os dias, todo o dia, ouvir e ler os analistas, os economistas e os políticos todos a baterem na mesma tecla, que é necessário, que é imprescindível, ajudar os bancos para recuperar a economia global. Que "sem um sistema financeiro saudável não poderemos ter crescimento económico" ... é na CNBC, na Bloomberg, no Financial Times, no Diário Económico, no Jornal de Negócios, na SIC Notícias, no Parlamento.

A outra tecla que está sempre premida é a da "sem coordenação global, sem fazermos todos a mesma coisa, não conseguiremos ultrapassar esta crise". Mas, se estiverem todos a pensar de forma errada (como na minha humilde opinião, estão), não será extremamente arriscado todos os países seguirem o mesmo caminho? Estarão realmente a pensar quando todos pensam da mesma forma?

O Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA vindo da Goldman Sachs, deu o mote quando fez aprovar o tal "$700 B TARP plan". E desde aí que os apoios aos bancos se têm multiplicado ... e depois diz-se que a culpa da crise foi terem deixado falir o Lehman Brothers (já ouvi o próprio Primeiro Ministro de Portugal dizer isto), mas será que ninguém reparou que o catalizador para o mercado cair a pique não foi o anúncio da falência do Lehman (a 15 de Setembro), mas sim o anúncio do apoio estatal aos bancos, no dia 19 de Setembro?

E desde aí que a cartilha seguida tem sido a mesma, com efeitos prejudiciais na economia global e no emprego. Devido a isto os movimentos políticos mais à esquerda têm vindo a ganhar adeptos o que é preocupante para quem aprecia a liberdade, a recompensa pelo mérito e o direito de propriedade.

Julgo ser imprescindível que se compreendam as diferentes fações do Capitalismo para que, em vez de se acabar com ele, se extirpem apenas as partes más. É curioso que a própria palavra "Capitalismo" talvez seja mais adequada para descrever as partes que entendo como más do que as que entendo como benéficas. Talvez seja necessário inventar uma nova palavra para um novo modelo económico.

2. A luz do Capitalismo

No meu entender as partes boas das sociedades capitalistas, ou com economia de mercado, são a liberdade dos agentes económicos para produzirem e adquirirem aquilo que entendem (claro, desde que dentro da Lei). Isto por oposição ao sistema de economia centralizada em que o Estado, através dos seus Planos Quinquenais, é que define o que se produz, quanto é que se produz, quanto é que custa e quanto é que cada pessoa pode comprar. Para mim o mecanismo de mercado é o mais eficiente na correta alocação dos recursos e na definição dos preços.

Por outro lado, defendo que cada um deverá ter um rendimento correlacionado com a produtividade do seu trabalho. Algumas pessoas produzem mais e melhor do que outras e sem dúvida essas deverão ganhar mais do que as que fazem pouco ou nada. É necessário melhorar os mecanismos de remuneração e aproximar mais a recompensa ao verdadeiro mérito. Ganharem todos o mesmo, quer sejam bons ou maus naquilo que fazem, uma ideia do Comunismo, não me agrada.

Outra questão que me parece boa do Capitalismo, ou melhor, da sociedade assente no mecanismo de mercado, é a possibilidade de mobilidade social, que não existe muito em Portugal, mas que se vê (ou viu) claramente nos EUA. Se as pessoas trabalham e tomam as opções certas, em princípio melhoram o seu nível de vida. Mas se cometem erros, se tomam opções erradas, se por ganância arriscam demais e perdem, então devem mesmo perder, não? Parece que não, agora que o Estado tem vindo a tentar amparar empresas e bancos falidos ... parece que a destruição criativa, que abriria espaço à ascenção dos mais competentes, ficou esquecida.

Penso também que toda a gente deve ter o direito de acumular bens para usufruto próprio ou para deixar aos seus filhos. Que deve ser permitido acumular capital, pois é também esse capital que permite gerar grandes obras no sentido lato do termo, que geram emprego e crescimento económico. A ambição é um bem do Capitalismo. Ter ambição, querer melhorar é algo que é intrínseco ao Espiríto Humano e contrariar isso cria sociedades tristes, sem chama, decadentes. Alguém foi a Berlim Oriental nos anos seguintes à queda do Muro? As pessoas do lado Oriental da cidade quase nunca se riam, por contraste com os alemães da parte Ocidental da cidade.

Isto para dizer que, sem ser perfeito, o Capitalismo é certamente preferível ao Comunismo, a História do Mundo já provou isso, é uma questão que está ultrapassada na minha opinião.

3. A sombra do Capitalismo

Agora, isso não quer dizer que o sistema capitalista não tenha defeitos, não quer dizer que o mecanismo de mercado resolva tudo e seja o melhor para tudo.

Para mim, o que está mal no Capitalismo são os agentes que procuram enriquecer apenas por terem capital, sem que o arrisquem.

Por exemplo, uma pessoa que conseguiu acumular um milhão de euros e que faz uma fábrica empregando pessoas é para mim quase um herói, é alguém que está a procurar enriquecer pela via em que beneficia a sociedade como um todo e corre riscos. Pode perder o dinheiro todo.

Agora, um outro, que tem um milhão de euros e os coloca num depósito a prazo para receber 5% de juros garantidos, que bem é que está a fazer? Quer ganhar dinheiro sem arriscar e sem trabalhar. Confia que os bancos irão depois emprestar esse dinheiro a outros que, trabalhando ou arriscando, conseguirão uma rentabilidade muito superior, que dê para pagar todos os custos dos bancos (incluindo impostos), os lucros dos bancos e ainda o juro do depositante. Pois, só que isto só é possível num Mundo em constante e elevado crescimento. O problema é que quanto maior é a economia (num planeta finito como o que temos), mais problemático é crescer a taxas elevadas.

Os bancos, que facilitam e lucram com isto, são os principais culpados da crise. São eles que, por necessitarem e desejarem um volume de crédito cada vez maior, induziram bolhas nos mercados da habitação e também no mercado de capitais.

Qual é o verdadeiro valor de uma casa, é o da lei da oferta e da procura? Não, é aquilo que o banco estiver disposto a emprestar! Foi a facilidade na concessão de crédito e a inflação nas avaliações (o banco também já tinha emprestado ao construtor e sabe que esse construtor tem capital e juros para pagar) que criou a bolha no imobiliário.

E as empresas, porquê que as cotações subiram ao mesmo tempo que as empresas se endividavam imenso nos últimos anos antes da crise? Porque os bancos estavam a fazer duas coisas, a emprestar às empresas um volume cada vez maior de crédito para crescerem de forma não sustentada as vendas e os lucros e pelo outro lado emprestavam dinheiro às empresas de private equity e às administrações para fazerem leveraged buyouts e fusões e aquisições.

Aconselho vivamente o visionamento do filme Money as Debt de Paul Grignon para compreender porquê que os bancos necessitam de um volume cada vez maior de crédito. Por causa da necessidade do sistema de pagar o capital e os juros do passado!

Eu considero os juros a génese do problema do Capitalismo. Por algum motivo durante muitos séculos foi proibido, por todas as religiões e reinados, os empréstimos a juros. É que a longo prazo os juros destróem o sistema económico.

Mas o leitor poderá dizer: "mas os juros são a recompensa por abdicar do capital no curto prazo". O problema é que os bancos não emprestam capital, eles criam capital. Os bancos não têm nem 10% do capital que emprestam. Olhem, também eu gostaria de poder, por ter aqui 50 euros na carteira, imprimir 500 € e ir ali ao meu vizinho emprestá-los, a juros. Se ele não mos pagar qual é o problema, também eles não existiam hahaha

O que é engraçado é que depois têm de ser os Estados a garantir e obrigar os cidadãos a aceitar o papel-moeda como troca pelos seus bens e serviços. Os bancos criam o dinheiro (tendo por contrapartida a assinatura no contrato de crédito) e recebem os juros e depois o Estado é que dá as garantias, como se vê agora. E a coisa está a ficar de tal forma perversa que agora o Estado pede dinheiro aos bancos e paga juros sobre esse dinheiro, quando o dinheiro foi criado ao abrigo da obrigação imposta pelo Estado. Por exemplo, o famoso plano de estímulo do Presidente Obama, no valor de $775 B, na realidade, se somarmos os juros, vai custar aos contribuintes $1200 B.

4. Uma crise essencialmente monetária

No meu entender o Mundo estava numa onda longa de expansão económica que finalmente iria permitir corrigir muitas das desigualdades profundas que o Mundo tinha, com o crescimento acentuado das economias emergentes e em vias de desenvolvimento. Mas esta crise veio estragar tudo pois segundo as últimas estimativas também essas economias entrarão em recessão.

O problema foi a inflação criada em todo o tipo de ativos derivado da necessidade dos bancos concederem um volume de crédito sempre superior, com o intuito de permitirem à economia pagar os juros e o capital do passado. Chegou-se ao ponto, em muitas famílias e empresas, de se pagar empréstimos com empréstimos, juros com juros, criando um problema de custos com juros compostos. Isto ao longo de anos.

Mas este é um fenómeno essencialmente monetário. Apaguem a componente de juros de todos os empréstimos que verão as prestações com as casas caírem para metade ou menos, que verão as empresas regressar aos lucros, que verão retornar o emprego e o crescimento económico.

Quem é que sofreria com isto? Os bancos, claro. Eu até nem defendo as nacionalizações, porque aos preços que os bancos estão por esse Mundo fora, os Estados podiam muito bem comprar os bancos todos e reorganizá-los num serviço centralizado. Saíria mais barato no longo prazo, na minha opinião. Sim, porque os Governos não têm nem ideia do que o desemprego e falência de empresas vai causar em termos de redução da receita fiscal.

5. Solução para a crise

A meu ver, a solução para a crise são os países do Mundo se coordenarem num perdão de juros da dívida global, nacionalizando ou adquirindo o sistema bancário global. Depois disso, os Estados criariam moeda até passarem da deflação à inflação, como se fazia antigamente.

Tem de se acabar com a criação de moeda através da dívida (pelos bancos) e passar à criação de moeda pelos Estados (com regras, claro). Tem de se acabar com os juros. Quem quiser acumular dinheiro no sistema de economia de mercado que invista em ações de empresas produtivas ou que inicie o seu próprio negócio. Não há dúvida que a outra face da ambição é o risco.

Bom, é óbvio que este artigo é completamente utópico e não é nada para aqui que o Mundo está a caminhar. Está a caminhar exatamente na direção oposta, na direção de manter o sistema atual, quiçá colocando os próprios Estados em risco.

Se continuarmos com a política atual de manutenção dos bancos a todo o custo arriscamos a que no final da história quem seja o dono dos países não é a sociedade, mas sim os bancos. Reparem, quem é que, no sistema atual, ficará dono das empresas se estas não pagarem as suas dívidas? Os bancos, claro. Quem é que, no sistema atual, ficará dono do Estado, se este não conseguir coletar impostos suficientes para pagar as suas dívidas? Os bancos, claro.

Algures no tempo há-de chegar a altura em que as sociedades ou alguém por elas terá de escolher: ou os Estados ou os bancos. Só que quanto mais tempo demorar a fazer esta escolha mais vai custar em termos de emprego e qualidade de vida dos cidadãos.

Bom, espero que ninguém que esteja a ler este artigo perca o respeito por mim por defender coisas tão ousadas ou mesmo aparentemente tresloucadas. Prometo voltar a questões mais práticas logo à noite :) "

Fonte: César Borja

http://borjainvest.com/forum/index.php?topic=35.0

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