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Investimento da moda: a boa oportunidade que já passou

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No dicionário, moda é o valor ou comportamento que mais se repete. É uma palavra comum na análise estatística de bases amostrais, e também nas discussões do dia a dia sobre roupas e atividades. O que muita gente não percebe é que também existe uma moda dentro dos comportamentos financeiros, investimentos e finanças pessoais.

Sempre existe um investimento da moda, e seguir a moda nesse caso costuma ser um erro. Provavelmente é um erro que você comete, ou conhece muita gente que comete. Já falamos um pouco sobre isso quando listamos os 6 comportamentos financeiros que você deveria abandonar, e agora é hora de entrar mais a fundo neste comportamento, que apareceu como nº 5 na nossa lista.

Qual é o investimento da moda?

Os investimentos da moda são aqueles que seu colega de trabalho comenta, que o seu gerente ou assessor liga para oferecer, ou aquele que surge como “excelente opção” em um almoço de família. Ou seja, os investimentos que estão na boca do povo. São as novas febres do mercado, para onde os recursos das pessoas físicas são direcionados em massa.

Se você tem ouvido falar muito sobre um determinado investimento, fique sabendo: esse é o atual investimento da moda. Se mais de uma pessoa comentou com você que está ganhando muito dinheiro com alguma aplicação: é o investimento da moda. Mas… se seus amigos estão ganhando com isso, você não deveria entrar também? Não.

[Alguns investimentos ganham muita visibilidade depois de passar por uma onda de valorização. Nessa hora, já é tarde demais para você entrar]

Sempre desconfie dos investimentos da moda. Investir é um assunto chato, e é pessoal. Não é um tema frequentemente compartilhado. Mas alguns investimentos ganham notoriedade e espaço na mídia (nas reuniões de família, na mesa de bar, etc) depois de passar por uma onda de valorização. Nessa hora, já é tarde demais para você investir.

Como surgem os investimentos da moda?

O mercado financeiro é dividido em diversas classes de ativos. Existe o mercado de renda fixa privada, o mercado de títulos públicos, o mercado de ações, o mercado de fundos, a poupança, o mercado de moedas estrangeiras… Enfim, vários!

Entre esses mercados, existem diariamente fluxos de recursos para todos os lados. Quando, por qualquer motivo, ocorrem fluxos mais concentrados de uma classe de ativos ou para uma classe de ativos, isso afeta significativamente o desempenho dessa classe no curto prazo. Um grande fluxo de entrada de recursos pode valorizar toda uma determinada classe, assim como uma grande fuga de recursos pode derrubar seu desempenho.

[um grande fluxo de entrada de recursos pode valorizar toda uma determinada classe de ativos, assim como uma grande fuga de recursos pode derrubar seu desempenho]

Quando um desses fluxos acontece com um pouco mais de força, os investidores que já estavam ali alocados são beneficiados pela valorização dos seus ativos. E isso vira notícia.

O burburinho atrai mais investidores, o que acaba gerando um efeito cíclico e temporário, pois muitos investidores acompanham as notícias e correm atrás da valorização, buscando obter o mesmo ganho que foi registrado no passado.

Chegando no final da festa

O problema é que, ao olhar para o investimento que teve mais rentabilidade no passado recente, estamos olhando para o ativos que já tiveram esse fluxo positivo de migração de recursos. Parece redundante, mas é incrivelmente importante entender esse conceito. Trocar seus investimentos nesse momento é uma decisão no escuro e totalmente aleatória.

Muitos acreditam que a recente valorização é sinal de que esse vai ser um bom investimento, mas, na verdade, a única conclusão concreta que se pode tirar dessa análise é “eu deveria ter migrado para esse ativo antes”. Depois que já houve a valorização, não é possível saber o que vai acontecer.

Pior: os grandes investidores institucionais, que seguem planos de alocação bem determinados, costumam aproveitar essas ondas de valorização para desfazer uma parte do investimento, colocando no bolso uma parte dos ganhos. É o que nós chamamos de “realizar os lucros”. Sabe o que isso costuma causar? Desvalorização da classe, trazendo prejuízos para quem chegou há pouco tempo.

O fato de uma classe de ativos ter apresentado bom desempenho no passado recente não é nenhum indicativo de que terá bom desempenho no futuro próximo. É como sair de casa na sexta-feira carregando um guarda-chuva porque choveu no fim de semana passado. Parece fazer algum sentido, mas não faz.

Casos emblemáticos

Na memória recente do investidor brasileiro, temos alguns casos emblemáticos desse tipo de comportamento. A febre dos IPOs, que teve seu auge em 2007 e no início de 2008, a grande popularidade dos fundos de inflação em 2011 e 2012, e mais recentemente a corrida para investir nos fundos imobiliários.

Cada uma dessas classes de ativos usufruiu um período de grande valorização, seguido de um período de grande captação de recursos de investidores, e depois seguido por um período de perdas acentuadas. Veja no gráfico abaixo o exemplo de um fundo de investimento que viveu a moda dos fundos de inflação.

Repare como a maior parte das pessoas (e do dinheiro) só entrou depois da fase de valorização. Esses investidores só colheram um resultado: frustração.

Fundo Itaú Renda Fixa Index Inflação FIC: buscar os investimentos que mais renderam no passado é um comportamento a ser evitado

Fundo Itaú Renda Fixa Index Inflação FIC: ascensão e queda de um investimento da moda

“Foi só eu entrar, e o investimento começou a cair”

Foi assim que muitas pessoas participaram da crise de 2008, da desvalorização dos fundos de inflação no começo de 2013, e da crise de credibilidade de alguns fundos imobiliários diante dos processos revisionais de aluguel e inadimplências de inquilinos em 2013 e 2014.

[Agora talvez estejamos vendo esse ciclo se repetir com as LCI e LCA e com a alta do dólar]

É isso que causa aquela sensação de “foi só eu entrar, e esse investimento começou a cair”. Agora talvez estejamos vendo esse ciclo se repetir com as LCI e LCA e com a alta do dólar.

Não se deixe convencer por rentabilidades passadas incríveis

Outro problema, que é assunto para uma outra oportunidade, é o conflito de interesses do seu gerente ou assessor. Já falamos diversas vezes sobre os bônus e incentivos que podem ser desalinhados, mas nos produtos da moda essa questão fica pior.

Para qualquer assessor, é muito mais fácil oferecer ao cliente para investir um produto que já teve boa valorização no passado. É só mostrar o gráfico e muitos clientes se deixam convencer. Isso é um problema, pois vender errado é muito mais fácil que vender um plano de investimento certo, sem emoções, e alinhado aos seus objetivos de longo prazo.

Muitas dessas vendas de produtos financeiros são fechadas sem o cliente entender o risco que está contraindo. Como o assunto não é simples, a prudência acaba sendo deixada de lado, atropelada pela angústia de não ficar para trás, e de tentar acompanhar a manada.

Enfim, o aviso que fica é: você não precisa (e não deveria!) acompanhar a manada. Se muita gente anda dizendo que ganhou dinheiro com determinado investimento, é sinal de que você deveria ter se posicionado naqueles ativos no passado, e não de que você deva passar a investir neles agora.

É por isso que todos os bons consultores valorizam a diversificação: é a forma de você aproveitar um pouco de cada moda, sem levar invertida de nenhuma delas.

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Boa tarde,

Parabéns gosto do li, pois é totalmente verdade, basta olharmos para o passado presente e ai esta a prova real disso...

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